Entre outras…

Entre outras pessoas, entre outros momentos, entre outras histórias, entre outras coisas sempre há alguma coisa a mais, algum ponto escondido, algum olhar enrustido, uma vírgula fora do lugar ou um tê sem cortar…

À Helena

31 de janeiro de 2008

                                       

Ao mesmo tempo me senti suja e indecisa. Eu não podia mais admitir que ele me tratasse assim, já não aguentava mais ter que limpar todos os dias o rosto para que não notasse nada da noite anterior. Tudo o que eu queria era voltar. Voltar para o futuro. Voltar para cima do muro. Talvez, se eu não tivesse feito opção alguma as coisas fossem bem diferentes. Ora! A quem ele quer enganar? É claro que sente nojo e revolta com a morte da Helena. Agora confessar pra mim que nunca amaria outra pessoa? Eu bem vi um dia ele saindo de manhã com aquele cheiro delicioso do perfume que ela dera pra ele no dia dos pais. Nunca entendi o presente, mas o que é que eu poderia entender aos 12 anos de idade? Nesta mesma manhã, notei que estava um dia lindo, ele não arrumou a mesa - como se isso fosse novidade! Ele não voltou cedo, nem tarde, mas num horário qualquer. Lembro que estava no sofá, lendo e ele nem me notou. Entrou cantarolando, jogou as chaves na mesa e nem olhou pra minha cara. É claro que ele estava me desprezando, fez isso a vida inteira. Menos quando Helena ainda era viva. "Ás vezes fico pensando em que momento exato ocorreu o turning point que transformou minha vida primeiro num pesadelo, depois nesta coisa sem sabor. De todas as pessoas do mundo, vivas ou mortas, reais ou imaginárias, quem mais eu invejo de verdade é aquela que eu fui antes do dilúvio". As palavras de Adelaide não podiam expressar melhor o que eu senti naquele momento em que ele me olhou e quase gritou: - Você vai demorar muito a entender que eu estou de saco cheio de você? E que mesmo assim, é por ela, (Helena, é claro) que você ainda mora aqui?
A minha repulsa, meu ódio tudo veio à tona. Eu sabia daquilo tudo, e é por isso que saía todas as noites para encher a cara e me afogar na primeira merda que encontrasse. Ele detestava bebida e por isso, me impedia de sair. O meu dilúvio começou ali. Na morte de Helena. Ali naquele scotch bar. Fiz minha opção e não pude voltar, nunca mais. Ela não voltou jamais. Logo ela que gostava tanto dos copos de leite no jardim. Ela que sempre acordava-me com um beijo terno. Quando soube que Ela não voltaria para pegar as roupas no chão, nem para entregar as fotografias, não quis sair, nem chorar. Apenas sentei e bebi. Bebi muito. Bebi pela morte, pela vida, pelo cheiro acre que abafava aquele lugar. Bebi por Helena, bebi por nós.

PSIU: A parte citada acima é do livro que estou lendo "Aos meus amigos" de Maria Adelaide Amaral. E que, provavelmente, inspirou este post.

Compondo notícias…

29 de janeiro de 2008

Acho que jornalistas escrevem músicas. Eles discorrem toda uma história, num determinado ritmo e canção. Se ajeitam na cadeira, escolhe uma boa melodia para ouvir, estralam os dedos, bebem água, vão ao banheiro, alguns rezam, acendem velas, fazem uma dança…
Enfim, cada um respeitando o seu ritual. E, o mesmo acontece com os compositores quando vão criar. Eles buscam um lugar tranqüilo e calmo, onde possa fluir a inspiração.
Os jornalistas bem que gostariam de um local calmo e tranqüilo, porém a dinâmica rotina de uma redação permite que ele o encontre apenas em seus pensamentos. O jornalista por alguns momentos então, se desliga do ambiente, sai de seu corpo e se espreguiça, toma um café — típico da categoria. E como o compositor ele se ajeita na cadeira, busca inspiração, no inusitado, na novidade e até no cotidiano assim, começam a compor.
Dedilhando o teclado, a canção começa a fluir, a sonoridade das frases, o arranjo dos fatos, tudo começa a fazer sentido. É música, é arte, é canção!
Aquele aspecto único, inovador, o que mais chamou atenção do leitor é como o refrão nas canções. Não sai da cabeça mais e fica se repetindo…repetindo…
O lead é aquela estrofe mais bonita, que emociona, toca. Aquele pedaço da música que faz com que se tenha vontade de ouvi-la mais uma vez. Algumas músicas são regravadas, algumas matérias são retransmitidas…
Cada um gosta de um estilo seja pop, blues ou country. Cada um sua área de interesse: esportes, cultura, política, economia…
Em busca de um furo de reportagem, ou de se traduzir a história com a maior veracidade possível os jornalistas buscam diversas fontes, escutam inúmeras pessoas, têm bons relacionamentos…
Já as músicas sempre têm um personagem, alguém que viveu algum trauma, alguma paixão, alguma desilusão. Assim como as notícias, que trazem personagens, que contam histórias, contam seus dramas, confessam suas amarguras.
O jornalista também bate recorde de vendas, um dos maiores jornais publica diariamente mais de 300.000 exemplares, no Brasil.
Alguns são conhecidos nacionalmente outros, até mundialmente.
Mais uma vez, como os compositores, alguns nem sequer são reconhecidos em sua cidade, diga-se lá pelo Sindicato! São aqueles “cantores” chinfrim, aqueles que inventam o personagem, constroem as histórias, inventam notícias, inventam canções, distorcem falas, e plagiam matérias. Abaixo esses jornalistas de merda! E aplausos, para aqueles que batalham todos os dias para manter a ética no seu trabalho.

P.S.I.U: Homenagem ao Dia do Jornalista — 29 de janeiro (é hoje!)

P.S.I.U 2: Este texto já foipublicado no meu antigo blog, portanto, qualquer semelhança não é mera coincidência, talvez, você já tenha o lido.

Lembranças dos domingos ‘esquecidos’…

28 de janeiro de 2008

Choveu tanto que achei que o domingo me pareceu ainda mais triste. Domingo que é domingo já é triste, é ruim, sem sal. Pelo menos foi assim que eu sempre pensei. Mas, ontem foi diferente. O friozinho que bateu foi ideal para que ficássemos agarrados o dia inteiro. Compartilhando do calor que nosso produz. Chovia lá fora e eu sorria por dentro. Cheguei a lembrar daquela velha calça de moletom azul… Meu Deus! Como era gostosa, daquelas que tem uma lãzinha quentinha por dentro, macia, macia! Que saudades daquela calça de moletom azul. Saudades dos dias frios da cidadezinha onde eu nasci. Saudades de ficar um tempão sem fazer nada. Pois, não podia assistir TV.
– É perigoso! Está relampejando, menina! — mamãe sempre alertava.
Não podia sair pra brincar na rua, não podia ler (a luz quase sempre ia embora nestes dias). O pior é que parecia perseguição com a minha implicância: dia frio, chuvoso e triste assim só caia aos domingos! Engraçado que pra ir à missa mamãe sempre dava um jeitinho! A gente morria de raiva, mais ia mesmo assim. Só sei que ontem, percebi que a calça azul trazia tanta coisa da minha infância, da minha vidinha por lá…que tive saudades! Tive saudades de saber que mesmo achando que aqueles dias eram tristes, eu tinha alguma felicidade. Nem que fosse pelo aconchego da calça de moletom azul e cordão em cima, daqueles que a gente amarra pra regular na cintura.
Depois de tanto tempo, vi que até os domingos não são dias tão ruins assim. Mesmo chuvosos, tristes, frios com um abraço apertado e um beijo bem quentinho tudo ficou mais alegre! Apesar da saudade da calça azul que mamãe deve ter dado pra alguém…

P.S.I.U: Esse post é dedicado a alguém incentivou para que ele fosse escrito!

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Metades…

24 de janeiro de 2008

Ele se deitou em meu colo e eu pude entender por um momento o quanto a vida pode ser COMPLETA. E então, entendi o porquê só precisamos de uma quando se encontra o verdadeiro amor. Naquele momento entendi como é possível se sentir tão protetora e ao mesmo tempo tão protegida. Pude entender como momentos de silêncio podem ser aqueles nos quais mais se diz. Entendi como tudo se encaixa, como a areia e o mar, as estrelas e o céu, os problemas e as soluções. São pares perfeitos que não precisam de ajuste ou dose certa, pois, quando se está apaixonado a mistura dos dois já é suficiente para ser perfeita. Senti que as coisas são mesmo óbvias demais para que sejam compreendidas. E é isso que as escondem, que cobrem-nas de simplicidade, deixando-as comuns demais para serem notadas. Naquele momento percebi o quanto seu corpo era grande próximo ao meu e ao mesmo tempo a medida exata para mim. Entendi que a vida é COMPLETA quando se encontra a outra metade.

Pra compreender

23 de janeiro de 2008

       

Quando uma vontade enorme de chorar a invadiu, ela se lembrou que não podia. Ela sempre esperou um momento como este, e sempre dizia que quando ele chegasse saberia que deveria ser compreensiva e aceitar com um sorriso no rosto. Então, ela suspirou. E pôde sentir seu coração bater - até conseguiu dar o belo sorriso. Mas, ora! Não cobremos tanto dela assim, ele batia apertado…Ela realmente o notou diferente. Não lhe custou dizer que compreendia. Tadinha…esperou tanto por ele aquele dia. Se arrumou antes do trabalho, colocou uma roupa bonita, queria agradá-lo. Mas, teve de se contentar em apenas falar-lhe ao telefone e se deliciar com o tom de sua voz. Não ficou normal o resto do dia. Ele não precisava saber disso. Ela tinha prometido para si mesma ( e olha que fazendo isso, estava vencendo seu orgulho. Todos sabem o quanto ela é orgulhosa) que o entenderia como em outras diversas situações ele fez.
Decidiu então, respirar um pouco. Pensar na vida, lavar os pratos foi tudo o que conseguiu. No final da noite uma mensagem, e só. O dia já estava no fim e seu amor reprimido, calado, abatido.

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